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21 de Outubro de 2019

Juizado de Pequenas Causas: como propor uma ação perante o Juizado Especial Cível

Luiz Antônio Francisco Pinto, Promotor de Justiça
há 5 anos

Prezados leitores,

Falaremos hoje sobre um assunto que para as pessoas da área jurídica é muito simples, mas, para quem é alheio ao direito, muitas vezes é complicado: trata-se sobre como propor uma ação perante o Juizado Especial Cível (o qual chamaremos a partir de agora de JECiv), o famoso “Juizado de Pequenas Causas”, nome que já foi abandonado pela legislação pátria.

Antes de falar de como “entrar” com uma ação no JECiv, façamos uma breve digressão sobre ele:

O JECiv está disciplinado pela Lei Federal n. 9.099/95, lei essa que tem o objetivo de realizar a conciliação, julgamento e execução de causas cíveis de menor complexidade - art. 98, I, CF/88.

Causas de “menor complexidade” não querem dizer causas menos importantes. Não! São causas em que há menor análise de elementos de provas, seja por que a prova é de fácil acesso, seja por que é uma matéria em discussão a qual é de amplo conhecimento dos operadores do direito, especialmente dos juízes, e que não é necessário maior aprofundamento para o julgamento.

Como é de menor complexidade, por óbvio, em tese, o julgamento também é mais rápido, o que é benéfico para o jurisdicionado, que busca justamente celeridade e eficiência do poder judiciário.

Compreendido isso, vejamos o que pode ser julgado pelos JECs:

“Art. 3º O Juizado Especial Cível tem competência para conciliação, processo e julgamento das causas cíveis de menor complexidade, assim consideradas:

I - as causas cujo valor não exceda a quarenta vezes o salário mínimo;

II - as enumeradas no art. 275, inciso II, do Código de Processo Civil;

III - a ação de despejo para uso próprio;

IV - as ações possessórias sobre bens imóveis de valor não excedente ao fixado no inciso I deste artigo”.

O inciso II acima fala do artigo 275, inciso II, do Código de Processo Civil. Vamos ao que ele prescreve:

“Art. 275. (...)

II - nas causas, qualquer que seja o valor:

a) de arrendamento rural e de parceria agrícola;

b) de cobrança ao condômino de quaisquer quantias devidas ao condomínio;

c) de ressarcimento por danos em prédio urbano ou rústico;

d) de ressarcimento por danos causados em acidente de veículo de via terrestre;

e) de cobrança de seguro, relativamente aos danos causados em acidente de veículo, ressalvados os casos de processo de execução;

f) de cobrança de honorários dos profissionais liberais, ressalvado o disposto em legislação especial;

g) que versem sobre revogação de doação;

h) nos demais casos previstos em lei”.

Sem entrar em maiores detalhes - porque não se busca escrever aqui com tecnicismos -, em nossa prática forense, constatamos que a maioria das ações propostas perante os JECivs são de cobrança, de devolução de quantia cobrada e paga indevidamente, indenização por danos materiais e morais, esta por negativação indevida no SPC/Serasa, não entrega de produtos comprados pela internet no prazo correto, entre outros constrangimentos sofridos; obrigação de fazer no sentido de cumprir garantia de produtos vendidos a consumidores e que estragaram, compra de produtos vencidos em supermercados e que não houve a troca devida, desacordos comerciais de pequeno valor etc.

Essas ações são as mais freqüentes e as que mais incomodam o jurisdicionado, que precisa de soluções rápidas e que lhes satisfaçam.

Dessa forma, havendo demanda sobre os assuntos descritos ou outros que se enquadrem no disposto no art. 3º acima transcrito, deve o jurisdicionado propor sua ação perante o JECiv.

Com essa minha afirmação, pode surgir uma pergunta: mas eu posso entrar sozinho com uma ação no JECiv? Sim, a resposta é positiva, desde que a sua demanda não seja de valor superior a vinte salários mínimos. Veja o que estatui o artigo , da lei n. 9.099/95:

“Art. 9º Nas causas de valor até vinte salários mínimos, as partes comparecerão pessoalmente, podendo ser assistidas por advogado; nas de valor superior, a assistência é obrigatória”.

Trocando em miúdos: se sua demanda não ultrapassar vinte salários mínimos, você pode ingressar no JECiv sem patrocínio de advogado. Se superior a vinte salários e inferior a quarenta, você pode ingressar no JECiv, todavia, necessita de advogado.

No caso da ação de até vinte salários mínimos sem advogado, a prática dos fóruns é a seguinte: se você chega com sua petição pronta, descrevendo de forma concisa os fatos e fazendo o seu pedido, há o protocolo dela; nesse momento, o cartório já faz a designação da data da audiência de conciliação;

Lado outro, se você vai até ao fórum sem uma petição elaborada, você é encaminhado para o setor de atermação, que é o local em que a sua demanda é registrada, ou seja, é elaborada sua petição por um servidor da justiça com os fatos narrados e o seu pedido ao final; em seguida, há o protocolo. Após isso, da mesma forma que explicado há pouco, há a designação de audiência de conciliação.

Um ponto curioso a se esclarecer é o de que, mesmo em ações que ultrapassem vinte salários mínimos, se o interessado quiser, ele pode renunciar ao excesso e propor a ação sem advogado. Dependendo do caso, mesmo com a renúncia, fica melhor para o jurisdicionado entrar com a ação sozinho e não ter de pagar advogado.

Assim, importante que o leitor tenha em mente que a justiça está acessível, dispensando, em alguns casos, inclusive o patrocínio de advogado.

Se de um lado é assim, de outro, importante salientar que algumas pessoas não podem ser partes perante o JECiv, conforme descrito no art. 8º:

“Art. 8º Não poderão ser partes, no processo instituído por esta Lei, o incapaz, o preso, as pessoas jurídicas de direito público, as empresas públicas da União, a massa falida e o insolvente civil”.

Bem, são estes os pontos que queria tratar no texto de hoje. Desse modo, com esses esclarecimentos, espero ter contribuído para que o leitor possa, se necessário, buscar seus direitos com mais tranqüilidade.

Esclareço que não tratei aqui dos juizados especiais cíveis federais, que fica para outro texto.

Reafirmo mais uma vez que os textos aqui postados não têm o intuito de exaurir os assuntos tratados, mas sim o de esclarecer pelo menos um pouco o leitor sobre determinados pontos que considero mais relevantes para o exercício da cidadania.

Vou colocar em anexo a este texto modelos de petição que podem ser usados perante os JECivs desde que feitas algumas adaptações de jurisprudência, que podem ser buscadas na internet. (clique aqui e faça o download dos modelos)

Até a próxima.

43 Comentários

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Muito interessante o texto do Sr promotor Luiz Antonio, de leitura fácil e esclarecedora. No tocante ao comentário do Sr Jorge Henrique eu discordo, quando ele critica a seguinte frase; Fica melhor para o jurisdicionado entrar com a ação sozinho e não ter de pagar advogado. No meu entendimento, interpretei da seguinte forma, que por se tratar de pequenas causas, o jurisdicionado vai saber se defender sozinho, porque ele sabe melhor do que qualquer pessoa (Advogado) o que ele esta reivindicando. Eu uso com bastante frequência o Especial Cível e nunca contratei serviço de advogado. Ressaltando que o texto do Sr Promotor é de suma importância para os que não sabem de seus direitos, e percebi que o texto nos transmite uma frase; vamos pelo caminho mais curto e desafogar os foros. continuar lendo

Consigo alegremente aplaudir ações de pessoas que se preocupam com o próximo, ou melhor dizendo, com os desprovidos de conhecimentos jurídicos que às vezes gastam até o do seu próprio sustento para obter informações de pessoas sem coração que não é o seu caso, pois aqui deixou esclarecimentos importantíssimos para quem precisa e não dispõe de condições para contratar advogados para causas tão simples de solucionar.
Em nome dessas pessoas deixo aqui o meu agradecimento e pedido que continue com essa iniciativa que prosperará sempre.
Obrigada! continuar lendo

Boa tarde Srs.

O nobre quis dar um aperitivo aos que nada sabem, e adverte, que a intenção não é exaurir, tão logo acredito que não tenha esquecido nada, principalmente pela advertência que fez, tempestivamente.
Achei o texto de grande valia, quem não se contentou com o aperitivo deve buscar mais alimento, e assim complementar para entender o todo.

Sr. Jorge Henrique Elias.
Quando fala "O uso de frases como"fica MELHOR PARA O JURISDICIONADO ENTRAR COM AÇÃO SOZINHO e NÃO TER DE PAGAR ADVOGADO"não nos soa adequado, afinal se o Ministério Público tem por dever funcional", sabemos e o autor se pronunciou positivamente quanto a isso.
Esclareço que não entendi com as palavras engessadas, e quando o Sr. menciona.
"...O que não acho justo é uma pessoa achar que conseguirá extrair o melhor do direito sem assistência de um profissional capacitado.
Seria o mesmo que um doente se auto-medicasse ou operasse a si próprio!"
Gostaria de esclarecer 2 coisas simples:
1 - não concordo que sem advogado não consiga extrair o melhor do direito sim, já assisti a casos semelhantes em que a petição protocolada por um profissional de outra área ter obtido êxito e um amigo com a mesma ação, pleiteada via advogado teve enormes dores de cabeça e os honorários praticamente invalidou a pretensão de reparação do dano. O advogado é essencial quando ele for essencial.
2 - no caso de um homem típico "do mato" e desprovido de conhecimentos na medicina acaba por vezes obtendo êxito pela sabedoria, e já observamos pesquisadores renomados ir mata adentro para aprender como aquele homem, simples, conseguiu a cura para determinados casos. Nesse simples exemplo observamos que não se pode taxar. Por isso o nobre texto tem a advertência necessária para um bom entendedor.

De todo modo, não quero delongar, nem *inticar (*cutucar na gíria que não consta em nosso dicionário) mas sim colaborar para que os que se dispõe a esclarecer sintam-se fortalecidos e motivados. continuar lendo

Prezado

Ótimo texto, de fácil entendimento, fico no aguardo para os Juizados Federais.
Permita-me um comentário, na minha região, mesmo chegando no atendimento com a "petição pronta", aguardará juntos aos demais e verá sua alegação reduzida a termo pelo serventuário.

abraços

Em tempo: por um erro técnico do google drive, não foi possível acessar os modelos de petição. continuar lendo

O autor do texto esqueceu de mencionar que se houver Recurso da decisão proferida, a representação por advogado é obrigatória, conforme determina o art. 41, § 2º, da Lei nº 9099/95.

Ou seja, será necessário advogado para interpor Recurso Inominado, assim como a outra parte precisará de advogado para oferecer Contra-Razões.

Na maioria das vezes que um consumidor processa uma empresa por vício de produtos, geralmente as empresas recorrem. continuar lendo